Trote Sujo

É, ele existe. O trote sujo é um tradicional rito de passagem em vários cursos, em especial na ADM. Nós, inclusive, somos os únicos do CSE que fazemos isso ainda hoje. Nesse tema rola muita polêmica ao redor, mas muitos dos que falam mal pouco sabem sobre o que realmente acontece no trote sujo da ADM nos dias atuais.

Costumamos ver pelo Brasil afora trote violentos com gasolina, calouros bebendo álcool de posto (hummmm...), chicotadas, etc. Claro, isso acontece porque no mundo há retardados, assassinos e vândalos. Mas no mesmo mundo há pessoas que se importam com as outras e tentam fazer e tudo para que o trote não seja algo que prejudique nem a nós, nem aos calouros. E assim ocorreu o trote do noturno 2010.1.

Apenas explicando o processo do começo: passamos na sala dos calouros (burros) e deixamos bem claro logo na primeira semana que haveria o trote sujo, que seria com ovo, farinha, mate, tinta guache, etc. Deixamos uma lista e nela assinaria quem quisesse participar. Voltamos no fim da mesma semana, pegamos a lista e lançamos as tarefas, como vir todo de azul (homenageando o curso), de pijama, carregar um ovo “decorado” (tinha alguns ali que davam até vergonha), e um crachá para identificá-los, como “calouro virgem” e “caloura chata”. No início da semana do trote fomos até a sala e dissemos “Pessoal, a partir de amanhã tragam roupas velhas, pois o trote pode ser a qualquer dia”. Mesmo assim, no dia levamos algumas roupas velhas (claro, sempre tem o calouro que esquece até seu próprio nome). Todos trocaram a roupa, os levamos para fora do campus e começamos as brincadeiras. Respeitamos todas (aliás, quase todas) as exigências, como uma menina que tinha feito uma cirurgia nos olhos e somente a sujamos do pescoço pra baixo. As que pediram pra não sujar o cabelo eu tratei bem lavando tudo com um ótimo shampoo de ovo.

Tudo começou com o elefantinho, onde os calouros deram as mãos representando a união do curso. Acredito que muitos gostaram de acariciar levemente o traseiro do amigo da frente, pois todos estavam cantando sorridentes e entusiasmados “eu sou calouro, eu não me engano, eu dou a vida por um veterano!”. Depois os enfileiramos em meia lua e o Kretzer proferiu o Juramento do Calouro, onde eles firmam o pacto de que nenhum deles devem negar bebida ao veterano e nem cobiçar suas possíveis mulheres (possíveis no sentido das que já são, poderão ser ou as que foram e poderão voltar a ser). Logo após fizemos o Morto Vivo, onde Ana Carla perguntava se uma personalidade da UFSC ou da mídia estava morta ou viva. No começo a maioria errava, mas depois apelamos.

[Plec!] [Isso era pra ser o barulho de um ovo quebrando]
- Por que me atirou ovo? O Klaes tá vivo! - disse a caloura.
- Eu sei, mas não era pra estar! - respondi, dando mais uma ovada.

Logo após fomos brincar de Torta na Cara, e essa quem apresentou fui eu. Como diria Silvio Santos, “a brincadeira é muito simples, é-é muito fácil...”. Duas fileiras de calouros, mão na orelha, eu perguntava algo sobre ADM ou conhecimentos gerais, quem batia a mão primeiro na minha mão respondia. Se acertava, o outro calouro levava tortada, se ninguém sabia os dois levavam. Obviamente nosso orçamento trotino era baixíssimo e por isso tivemos que pensar em uma alternativa à torta de chantilly. O Fejão bolou uma meleca de trigo, ovo, farinha e Tang de morango que ficou demais! O calouro mergulhava a cabeça e voltava com a cara escorrendo. Uma caloura não queria sujar o rosto porque estava maquiada. WTF??? Aham, Cláudia, senta lá.

Por fim fizemos a Rodobaca. Tradicionalíssima, ela consiste em um circuito: o calouro se delicia com um gole de Maracujá Joinville (só quem quer e o quanto quer), passava por baixo de um barbante estendido em zigue-zague (numa lona cheia de tinta, ovo e derivados) e rodavam dez vezes com a testa apoiada num cabo de vassoura. Depois que todos passaram pela brincadeira, os sujamos mais e mais e mais... Logo após os liberamos para conseguirem dinheiro para a festa deles, que será junto com a manhã e para todo o curso. Ou seja, ninguém reclamou, e as meninas que não queriam sujar o cabelo vão nos agradecer de joelhos depois que perceberem como seu cabelo melhorou. Aliás, é lamentável dizer isso, mas para algumas o cabelo é a única coisa bonita que lhes restas.

O Tiago cumpriu a promessa e, depois de um ano, quebrou seu ovo que recebeu quando era calouro na cabeça de uma calouro folgado. Cara, que fedor! Aquele ovo sim fedia, e não os normais. Mesmo assim teve gente quase vomitando por causa do cheiro (seria legal ver os calouros se arrastando no vomito) (não seria não) (e agora?). A Gabi (sensacional menina da minha sala) se transformou em uma general sem piedade. Me deu medo. No geral, foi um trote tranquilo e muito bom.

Enquanto os calouros estavam arrecadando fundos para nosso churrasco solidário, os veteranos ficaram bebendo. E bebemos, meu pai do céu [?]. Em pouco mais de uma hora chegam duas calouras: uma trouxe R$9,00 e outra R$3,15. Porra, R$3,15? Como alguém fica uma hora e meia em um semáforo movimentado, em frente ao shopping mais rico da capital catarinense em plena sexta-feira a noite quando as pessoas estão indo para a balada cheia de grana em seus bolsos e me trás apenas R$3,15? LAMENTÁVEL. Mas calma, ela terá que pagar...

Por conta disso eu e a Bruna Rocha (que ganhou um apelido “maldoso” nessa noite) fomos conferir o trabalho dos calouros de perto. Viemos em casa nos limpar, pois estávamos tão sujos quanto eles, compramos cigarros e fomos ao semáforo. Buzinamos e o calouro Digo veio todo feliz e com sua mãozinha estendida, crente de que lhe daríamos dinheiro. “Vem cá, tenho algo pra te dar” disse ela, maliciosamente, logo antes de jogar um pote inteiro de purpurina prata no calouro, que ficou parecendo a Globeleza. Aliás, esse calouro ficou bêbado demais depois, quando voltou ao Pida.

Os calouros foram voltando aos poucos, alguns com menos, outros com mais. Um calouro (não identificado) arrecadou R$95,00. O Vieira, R$60,27; o Allan, R$53,77... Aí me pergunto: como a caloura 3,15 pegou só R$3,15? Ficamos ali bebendo e falando muita merda quando descobrimos que havia um Happy Hour da Pedagogia. Ué, vamo!

A festa estava bem cheia, mas a cerveja estava quente. Um calouro, sem eu pedir, começou a comprar do ambulante cerveja pra ele e pra mim Eu quis pagar, mas ele disse que era obrigação dele por não ter tomado trote. Enfim, os calouros me embebedaram.

No fim da contas percebi que, apesar de várias e várias reuniões e discussões desde dezembro, o trote finalmente saiu do jeito que a gente queria. Rumo ao churrasco!

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